há uma névoa densa
que ainda encobre
pensamentos e sonhos
obscurece o porvir e
suplanta a previsibilidade das coisas
com a convicção do caos
a constância das incertezas
e a descrença na redenção

Escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra.
há uma névoa densa
que ainda encobre
pensamentos e sonhos
obscurece o porvir e
suplanta a previsibilidade das coisas
com a convicção do caos
a constância das incertezas
e a descrença na redenção

todos os dias
quando teu sorriso atravessa meus silêncios
quando tua lembrança costura o correr das horas
e tua voz ecoa em meus poemas
me pergunto se ocupo o mesmo espaço em ti
que preenches em mim,
se tua vida me faz um convite aberto
ou se não passo de um pequeno momento
e uma doce memória
em tuas noites

há um tanto de ti em todos os meus dias
teu livro em minha cabeceira
teu perfume em minhas roupas
o rastro do teu sorriso em minha memória
o toque de tuas mãos em meus desejos
espaço preenchido
presença que não se esvai
minha vida querendo tua estada

o que estou pensando
quando me furto
de ver obviedades
quando me convenço
de que há uma saída
quando finjo
que pode ser possível?
onde estou quando
não estou pensando?

a vida entrecortada por tua ausência
a espera quase sem trégua
pelas tuas aparições
deserto sem nome
noite sem lua
sede sem solução
nada é mais cortante que
a tua falta.

Monocórdicas
Foram as tardes
Que sucederam
Aquela sentença
Entrecortadas apenas
Pelo som do vento
A nos afastar do destino.

deita comigo
para desvendar meu sono
entrelaça suas pernas nas minhas
enquanto enlaçamos nosso gozo
acende mais meu desejo
(se for possível)
me chama a sonhar a vida
enquanto descanso em seu corpo

curativos não escondem machucados
tatuados a lâmina,
globulares carimbos de cigarro
muitas marcas aparentes
que (sem desejar, sem avisar)
jogam meus olhos para as peles lisas
para os sonhos realizados
para aqueles a quem a vida
parece ser indolor.

sinto-me rendida ao seu sorriso
entregue, desnuda, ganha
sorriso-convite aos teus encantos
teus mistérios, teu universo
a me encantar, me abandonar, me vencer
a viver e morrer na sua boca.

há tempestades incontidas em meu peito
que entrelaçam chuvas de amor e desassossego
cujos trovões me despertam na madrugada, sem rumo
ou me mantem em vigília enquanto durmo
precipito, por vezes, cega e doente que me sinto
não sei se pela falta de fé ou desejo de futuro
mas o descanso me escorre pelas noites
pelos barulhos dos raios e pelos meus murmúrios
te tenho em mim como um vício
as crises de abstinência de tua ausência
me viram do avesso, me atingem fundo
te querer é quase como uma febre, um desatino
e, ao mesmo tempo, descanso dos meus infortúnios
