Pergunta

todos os dias

quando teu sorriso atravessa meus silêncios

quando tua lembrança costura o correr das horas

e tua voz ecoa em meus poemas

me pergunto se ocupo o mesmo espaço em ti

que preenches em mim,

se tua vida me faz um convite aberto

ou se não passo de um pequeno momento

e uma doce memória

em tuas noites

Óleo sobre tela, Izumi Kogahara, 2022

Febre

há tempestades incontidas em meu peito

que entrelaçam chuvas de amor e desassossego

cujos trovões me despertam na madrugada, sem rumo

ou me mantem em vigília enquanto durmo

precipito, por vezes, cega e doente que me sinto

não sei se pela falta de fé ou desejo de futuro

mas o descanso me escorre pelas noites

pelos barulhos dos raios e pelos meus murmúrios

te tenho em mim como um vício

as crises de abstinência de tua ausência

me viram do avesso, me atingem fundo

te querer é quase como uma febre, um desatino

e, ao mesmo tempo, descanso dos meus infortúnios

Marc Chagall, aquarela e guache, 1917.